Jornalista
Conheça os tipos de Ecossistema em negócios
Por Lorena F. Leal

O termo ecossistema tem ganhado cada vez mais espaço no ambiente de negócios. Emprestado da biologia com o objetivo de destacar a interdependência entre os atores de negócios, o termo é utilizado em diferentes contextos: no relacionamento entre startups e grandes empresas, no contexto das plataformas, de pesquisa com universidades e empresas, etc.
Na academia e na prática, o termo parece descrever diferentes conceitos e fenômenos. É preciso estar em uma plataforma para estar em um ecossistema? É preciso se relacionar com startups para estar em um ecossistema? O artigo recente de Thomas & Autio (2020) visa esclarecer essas questões e trazemos os principais pontos neste texto.
Segundo os autores, existem diferentes tipos de ecossistemas, que compartilham algumas características em comum e outras características diferenciadoras. Os ecossistemas possuem em comum as seguintes características, que exemplificaremos com o caso Android + Aplicativos:
A governança em ecossistemas não depende de mecanismos contratuais, mas reside na definição de papéis, de complementaridade, no co-alinhamento de atores por meio de uma plataforma, etc. Ex: a governança no sistema Android funciona por meio de sua plataforma e suas regras de afiliação, na qual qualquer ator pode se filiar sem nem mesmo entrar em contato com o Google.
Participantes heterogêneos, que atuam em diferentes papéis e podem pertencer a diferentes indústrias; Ex: os aplicativos para o sistema Android pertencem a setores como os de saúde, entretenimento, finanças, ensino, etc.
O resultado (output) entregue por um ecossistema é superior ao resultado que qualquer participante sozinho poderia entregar; Ex: nenhuma empresa seria capaz de gerar sozinha tantos aplicativos como a plataforma do Android oferece hoje, nem mesmo o próprio Google.
A interdependência entre os membros de um ecossistema não apresentam as mesmas características que a de uma cadeia de suprimentos; Ex: o sistema Android se torna mais valioso por causa dos aplicativos que são oferecidos em sua plataforma, e não consegue entregar uma proposta de valor completa sem eles; da mesma forma, os aplicativos se tornam mais valiosos por rodar na plataforma, e não conseguiriam entregar o mesmo valor sem ela; logo, existe uma coespecialização e uma interdependência entre estes atores.
A governança em ecossistemas não depende de mecanismos contratuais, mas reside na definição de papéis, de complementaridade, no coalinhamento de atores por meio de uma plataforma, etc. Ex: a governança no sistema Android funciona por meio de sua plataforma e suas regras de afiliação, na qual qualquer ator pode se filiar sem nem mesmo entrar em contato com o Google.
Porém, algumas características diferenciam os ecossistemas: seu foco espacial/geográfico, que pode se tratar de cidades, regiões, países, e até em nível global; seu nível de análise, que pode tratar de empresas ou indústrias, agregando fornecedores, complementadores, plataformas, etc.; e ainda o seu resultado, que pode variar entre conhecimento, inovação, modelo de negócios (startup), etc Para Thomas & Autio (2020), existem três tipos de ecossistemas: ecossistema de inovação, ecossistema empreendedor e ecossistema de conhecimento. Conheça melhor cada um deles:

● Ecossistema de inovação: descreve um conjunto diversificado de atores que colaboram para a entrega de uma inovação a um público definido. O resultado é um produto ou serviço que gera uma oferta de valor. Geralmente é composto por uma empresa focal e seus complementares, como no exemplo do Android + Aplicativos. A governança ocorre via plataformas ou padrões tecnológicos. Exemplos: iFood, Uber, Android e SAP.
● Ecossistema empreendedor: descreve comunidades regionais que facilitam a criação de novos empreendimentos e startups. Ao contrário do ecossistema de inovação, não se organiza para uma entrega de valor específica, mas para o compromisso de gerar diferentes negócios. É composto por aceleradoras, espaços de coworking, mentores e investidores anjos. Exemplos: Vale do Silício, ecossistema de São Paulo e do Agronegócio.
● Ecossistemas de conhecimento: descreve comunidades especializadas na produção de conhecimento, baseadas em pesquisa e desenvolvimento (P&D). Os resultados são tecnologias e conhecimento pré-comercialização. Nesse ambiente, os atores aprendem de maneira coletiva, explorando novas frentes científicas. É composto majoritariamente por universidades e centros de pesquisa, empresas com fins lucrativos, etc. Em ecossistemas de conhecimento falamos, por exemplo, no Ecossistema de São Carlos, do Porto Digital, etc.
Esses diferentes tipos de ecossistemas podem coexistir em proximidade, em uma mesma localidade geográfica, possuir atores em comum, e potencializar um ao outro. Ecossistemas de conhecimento, por exemplo, podem estimular ecossistemas empreendedores por meio de geração de conhecimento e tecnologias. Ecossistemas empreendedores podem fomentar ecossistemas de conhecimento atraindo investimento com potencial de levar as tecnologias e o conhecimento pré-comercialização para o mercado, impulsionando o surgimento de startups.
Ecossistemas de inovação podem surgir dentro de ecossistemas empreendedores, por exemplo, quando a oferta de valor da startup demandar ofertas de valor complementares. Porém, cada tipo possui características específicas e demanda esforços de gestão diferentes para atingir seu potencial. Nesse sentido, a classificação proposta por Thomas & Autio (2020) nos ajuda a compreender e delimitar as fronteiras dos ecossistemas a partir dos seus resultados, facilitando a análise e formulação de estratégias específicas para cada categoria.
Referência
Thomas, L. D., & Autio, E. (2020). Innovation Ecosystems in Management: An Organizing Typology. In Oxford Research Encyclopedia of Business and Management..
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