Jornalista

Publicado em
26 de maio de 2026

Sustentabilidade, inovação radical e o desafio das organizações ambidestras

Professor Joaquín Alegre debate caminhos para empresas enfrentarem os grandes desafios sociais e ambientais contemporâneos

Por Aline Khouri

Como as organizações podem inovar radicalmente sem comprometer suas operações cotidianas? Como as transformações decorrentes desse processo podem contribuir para enfrentar desafios globais como a crise climática?

Essas foram algumas das reflexões centrais da palestra Sustentabilidade, Inovação Radical e Organizações Ambidestras, ministrada pelo professor catedrático Joaquín Alegre, da Universitat de València, em atividade promovida pelo CEPID BRIDGE em parceria com a Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP.

Ao longo da apresentação, Alegre destacou que os desafios contemporâneos exigem mais do que melhorias graduais em produtos, processos e modelos de gestão. Segundo o pesquisador, enfrentar questões estruturais demanda inovação radical, uma transformação capaz de romper padrões estabelecidos e criar novas formas de produzir, consumir e organizar os sistemas econômicos e sociais.“O desenvolvimento sustentável não depende apenas da eficiência. Ele exige mudanças profundas na maneira como as organizações aprendem, inovam e tomam decisões”, argumentou.

A palestra também abordou o conceito de organizações ambidestras: empresas capazes de equilibrar eficiência e estabilidade no presente, ao mesmo tempo em que criam espaço para experimentação, aprendizagem e desenvolvimento de soluções voltadas ao futuro. Nesse contexto, Joaquín Alegre apresentou exemplos de estruturas organizacionais desenvolvidas para proteger a inovação radical contra a pressão imediata por resultados operacionais. 

O “Efeito Robinson Crusoé” e os riscos do isolamento 

Um dos casos abordados foi o projeto Hybrid-Air, desenvolvido pela Peugeot Citroën, que visava desenvolver uma tecnologia automotiva baseada em ar comprimido para reduzir as emissões de CO₂ (dióxido de carbono). Embora o projeto tenha alcançado avanços técnicos importantes, houve dificuldades na integração com a operação principal da empresa. 

O exemplo foi utilizado para ilustrar o chamado “Efeito Robinson Crusoé”, que ocorre quando equipes de inovação se tornam tão isoladas da estrutura organizacional que suas soluções acabam desconectadas da realidade financeira e operacional necessária à implementação em larga escala.

Para proteger a iniciativa das pressões da operação tradicional da empresa, o grupo automotivo PSA Peugeot Citroën criou uma estrutura isolada e altamente autônoma, conhecida como Skunkworks. Aproximadamente 200 profissionais trabalharam exclusivamente no projeto em um ambiente de alta confidencialidade.

Do ponto de vista técnico, os resultados foram expressivos. O protótipo alcançou consumo de apenas 2,9 litros a cada 100 quilômetros rodados e emissões de cerca de 69 gramas de CO₂ por quilômetro, números bastante avançados para a época.

No entanto, o isolamento extremo da equipe gerou um efeito inesperado. Sem integração suficiente com outras áreas estratégicas da companhia, como finanças, operação e viabilidade comercial, o projeto avançou tecnicamente sem que os custos de implementação fossem adequadamente incorporados ao seu desenvolvimento. 

O resultado foi uma tecnologia considerada inviável economicamente para o mercado naquele momento. Apesar do potencial inovador, o projeto não chegou à produção em larga escala e acabou se tornando o que Alegre chamou de “tecnologia de gaveta”.

O caso também evidenciou impactos humanos significativos. Segundo o pesquisador, após o encerramento da iniciativa, os cerca de 200 integrantes da equipe deixaram a companhia. Para Alegre, o exemplo demonstra que falhas na gestão da ambidestria organizacional não afetam apenas a inovação em si, mas também podem acarretar a perda de talentos, de conhecimento acumulado e de capacidades estratégicas nas empresas.

Durante a tarde, o professor, que foi editor por muitos anos de uma das principais revistas internacionais dedicadas a revisões sistemáticas em estudos de gestão — o International Journal of Management Reviews — ministrou um workshop voltado a pesquisadores, professores e estudantes. 

A atividade reuniu docentes da USP São Carlos, pós-doutorandos do Centro e interessados em aprofundar metodologias de revisão sistemática da literatura, utilizadas para organizar, analisar e sintetizar criticamente o conhecimento científico já produzido sobre determinado tema.  A  iniciativa ofereceu ferramentas para ampliar a capacidade de identificar lacunas científicas, contribuindo para a construção de estudos mais robustos e decisões baseadas em evidências.

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